segunda-feira, 9 de julho de 2012

A revolucionária que saiu à Rua Sésamo





Conhecia apenas de vista o Monstro das Bolachas, boneco da Rua Sésamo que doravante e pelo menos em Espanha trocará os biscoitos por uma dieta equilibrada em fruta e vegetais. A ideia visa combater a obesidade infantil, mas é sobretudo uma prova da infantilidade destes ditatoriais tempos.

Pressupor que as crianças imitam as personagens de ficção é acreditar que diversas gerações ficaram milionárias por ler as histórias do Tio Patinhas, que inúmeros petizes se lançaram pela varanda após um desenho animado do Super-Homem ou que uma data de moçoilos passaram a residir em conjunto com um idoso mal-educado em consequência do convívio com as aventuras de Tintim. Ou, para usar outro exemplo em que a opressão vigente fez lei, é acreditar que muitos meninos desataram a fumar por inspiração de Lucky Luke, cujo cigarro foi entretanto substituído por uma palha (e é extraordinária a quantidade de criancinhas com palhas pendentes dos lábios desde então).

Porém, o pequeno fascismo dos nossos dias não espanta. Espantoso é perscrutar as cabeças que apoiam, e prescrevem, semelhantes delírios. O DN ouviu uma: Isabel do Carmo, dita endocrinologista, acha aconselhável que, "no caso das crianças com excesso de peso ou obesas", se lhes retire certos alimentos "da vista, seja em casa, seja na televisão".

Assim de repente, a dra. Isabel assemelha-se imenso àquela ilustre antidemocrata que há meia dúzia de anos foi condecorada pelo então presidente Jorge Sampaio e que, nos idos da década de 1970, chefiava uma organização terrorista intitulada PRP, prestigiado cargo que a envolveu no rebentamento estratégico de explosivos em locais avessos à revolução. Respeita-se a coerência de quem, hoje como ontem, está disposta a tudo de modo a impor a sua vontade. O que custa é respeitar a opinião em matéria de saúde vinda de uma criatura cujo bando recreativo cometeu, entre diversas traquinices, crimes de sangue. No fundo, não seria demasiado diferente se o estripador de Lisboa se aliviasse de uns palpites sobre a importância da matemática no ensino básico.

Além disso, acresce à questão moral a questão técnica. Mesmo sendo credível que a dra. Isabel desempenhou com mestria a antiga profissão, nada indica a sua competência na actual: para uma especialista em nutrição e para sermos educados, a dra. Isabel possui excesso de peso. Ou muito me engano ou a senhora não perde uma emissão da Rua Sésamo, na versão não censurada e repleta de calorias.

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